Em 13 de maio de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória que zerou o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50. A chamada "taxa das blusinhas" (que cobrava 20% sobre essas compras desde 2024) deixou de existir, pelo menos por enquanto: a isenção vale até o fim do ano, quando as novas regras da reforma tributária entram em vigor.

Para o consumidor, o recado é simples: Shein, Shopee e AliExpress voltam a praticar preços mais baixos, sem a cobrança federal. Para o pequeno comerciante brasileiro, especialmente quem vende roupas, acessórios, utilidades domésticas e eletrônicos no varejo físico ou digital, o cenário ficou mais difícil de novo, e entender o que fazer com isso é mais urgente do que torcer para a medida ser revertida.

O que, de fato, mudou

A taxa de 20% criada em 2024 foi uma tentativa de nivelar a competição entre o varejo nacional e as plataformas asiáticas, que historicamente operavam com carga tributária muito menor do que qualquer comerciante brasileiro paga. Com a MP, esse nivelamento acabou.

O ICMS estadual continua sendo cobrado nas compras internacionais, mas em Minas Gerais a alíquota segue em 17% (o governador Zema optou por não aderir ao aumento para 20% que outros estados implementaram em 2025), e essa cobrança já existia antes da taxa das blusinhas sem impedir a vantagem de preço das plataformas. A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) foi direta na crítica: a medida "subsidia o concorrente estrangeiro às custas do pequeno comerciante, que recolhe seus tributos integralmente". A estimativa de impacto fiscal é de R$ 1,94 bilhão em arrecadação federal perdida só em 2026.

O varejo e a indústria nacional reagem com críticas, e há quem leia a decisão como manobra eleitoral, mas enquanto o debate político segue, o comerciante precisa tomar decisões práticas. E isso começa por entender onde a disputa pode, e onde não pode, ser travada.

A armadilha da guerra de preços

A primeira reação de muitos comerciantes diante de uma pressão de preço é tentar acompanhar: baixar margem, oferecer desconto, tentar ficar na faixa do concorrente mais barato. Essa estratégia quase sempre termina mal para quem não tem escala para sustentá-la.

Shein e Shopee têm estruturas de custo que um varejista da nossa região dificilmente vai reproduzir integralmente: produção em países com custo muito baixo, volume absurdo de pedidos que dilui frete e logística, e tecnologia de precificação dinâmica que ajusta valores em tempo real. Tentar competir por preço com essas plataformas é como entrar num braço de ferro contra alguém três vezes mais pesado, com o resultado já decidido antes de começar.

A pergunta certa não é "como eu abaixo meu preço para competir", mas sim "por que um cliente aqui do Norte de MG compraria de mim em vez de comprar da Shein?" A resposta a essa pergunta é onde mora a estratégia.

O que o comércio local tem que as plataformas não têm

Plataformas asiáticas vendem produto. Comerciantes locais têm a capacidade de vender confiança, conveniência real e relação, que são vantagens que não aparecem em nenhum filtro de preço de marketplace, mas que influenciam muito a decisão de compra, especialmente no interior.

Pense no que acontece quando algo dá errado numa compra da Shein: o cliente abre um chamado num chat automatizado, espera dias por resposta, precisa devolver o produto para fora do país e frequentemente desiste do reembolso porque o processo é longo e burocrático demais. No comércio local, o cliente volta na loja, conversa com alguém que conhece pelo nome e resolve em minutos. Isso tem valor concreto, e o trabalho do comerciante local é fazer esse valor ser percebido antes da compra, não só depois que o problema aparece.

Entrega imediata é outra vantagem que nenhuma plataforma internacional consegue oferecer. O cliente que precisa de uma roupa para um evento no fim de semana, de um presente de última hora ou de uma peça para conserto urgente não vai esperar quinze dias pelo frete da Shopee. E há ainda o fator confiança no produto: o consumidor que comprou da Shein e recebeu uma peça com tamanho errado, cor diferente ou qualidade abaixo da foto aprende rápido que o menor preço tem um custo que não aparece no checkout. Isso cria uma abertura real para o comerciante local que consegue mostrar, consistentemente, que entrega o que promete.

O comerciante do Norte de Minas tem ainda uma vantagem que tende a ser subestimada: conhece o cliente. Sabe o que o povo da região usa, o que combina com o clima, o que funciona para o estilo de vida local, o que vendeu bem no São João e o que sobrou no estoque. Nenhum algoritmo da Ásia consegue replicar isso.

Três movimentos práticos para reagir agora

Primeiro: revise o seu mix de produtos. Se você vende exatamente o que a Shein vende, você está na arena errada. Identifique os itens do seu estoque com menor sobreposição com as plataformas internacionais (produtos com identidade local, marcas nacionais com proposta mais clara, peças de qualidade superior ou com atendimento especializado) e concentre ali sua energia de vitrine, comunicação e curadoria.

Segundo: formalize o relacionamento com seus clientes. Uma lista de WhatsApp bem cuidada, com comunicação útil e não apenas promoção diária, vale mais do que qualquer desconto pontual. Clientes que sentem que têm um relacionamento com o comerciante compram com mais frequência, indicam mais e são menos sensíveis a preço. Se você ainda não tem uma base organizada de clientes com nome, contato e histórico mínimo de compra, comece hoje com o que você tem.

Terceiro: use o preço de forma inteligente, não desesperada. Isso significa ter clareza sobre sua margem de contribuição real por produto, saber quais itens você pode usar como porta de entrada (com margem menor para atrair o cliente) e quais são os itens de maior valor onde você recupera a margem. Precificar tudo igual, para cima ou para baixo, é uma das formas mais comuns de destruir lucro sem perceber.

A concorrência internacional não vai desaparecer e provavelmente vai continuar crescendo. Mas o comércio local que entende onde está sua vantagem real, e trabalha para torná-la visível e consistente, tem espaço para crescer mesmo nesse cenário. Quem vai sair enfraquecido é quem tentar competir no terreno do adversário em vez de jogar no seu.

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Perguntas frequentes sobre a taxa das blusinhas

O que é a taxa das blusinhas?

A taxa das blusinhas foi um imposto de importação de 20% cobrado sobre compras internacionais de até US$ 50 em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress, criado em 2024 e revogado por Medida Provisória em maio de 2026.

O fim da taxa das blusinhas é definitivo?

Não. A isenção vale até o fim de 2026. A partir de janeiro de 2027, as regras da reforma tributária entram em vigor e a tributação sobre essas compras será redefinida.

Como o pequeno comerciante pode competir com Shein e Shopee sem baixar os preços?

As principais vantagens do comércio local são entrega imediata, relacionamento com o cliente, facilidade na troca e devolução e conhecimento do perfil de consumo local. Trabalhar esses diferenciais de forma consistente é mais eficaz do que tentar acompanhar o preço das plataformas.

A taxa das blusinhas afetava apenas roupas?

Não. A cobrança incidia sobre qualquer compra internacional de até US$ 50, incluindo eletrônicos, acessórios, utilidades domésticas e outros itens populares nessas plataformas.

O que é margem de contribuição e por que ela importa para o varejista?

Margem de contribuição é o valor que sobra de cada venda após descontar os custos variáveis (custo do produto, impostos sobre a venda, comissões). Saber a margem de contribuição por produto permite ao comerciante identificar quais itens realmente geram lucro e tomar decisões de preço com base em dados, não em intuição.